Testes nucleares da Coreia do Norte podem ter reativado falhas sísmicas
Estudo identificou quase 1.400 tremores na região do Monte Mantap e aponta aumento da atividade após a explosão subterrânea realizada em 2017
Os testes nucleares subterrâneos realizados pela Coreia do Norte podem ter alterado permanentemente a estrutura geológica do Monte Mantap, onde está localizado o complexo nuclear de Punggye-ri.
Um novo estudo publicado na revista científica Science identificou quase 1.400 terremotos na região entre 2008 e 2025. Segundo os pesquisadores, a frequência e a intensidade dos tremores aumentaram de maneira significativa depois do último teste nuclear conhecido, realizado em 3 de setembro de 2017.
Os cientistas trabalham com a hipótese de que as sucessivas explosões tenham danificado as rochas e alterado as pressões sobre falhas geológicas que já existiam no interior da montanha.
Efeito dominó no subsolo
De acordo com o sismólogo e geofísico Kwang-Hee Kim, da Universidade Nacional de Pusan, na Coreia do Sul, os testes nucleares repetidos perturbaram progressivamente as rochas ao redor dos túneis subterrâneos.
A explosão de 2017 teria provocado os maiores danos e desestabilizado algumas falhas sísmicas. Essa mudança pode ter desencadeado um efeito dominó, gerando tremores que continuam sendo registrados quase uma década depois.
Embora explosões subterrâneas normalmente provoquem abalos e desmoronamentos nas semanas seguintes, a persistência da atividade sísmica durante tantos anos surpreendeu os pesquisadores.
Explosão até 20 vezes mais potente que Hiroshima
O teste de 2017 foi o sexto e mais poderoso já realizado pela Coreia do Norte.
Estimativas indicam que a explosão teve potência equivalente a algo entre 100 e 250 quilotons de TNT. No limite superior dessa estimativa, a energia liberada teria sido aproximadamente 20 vezes maior do que a bomba lançada sobre Hiroshima, no Japão, em 1945.
Poucos minutos depois do teste, instrumentos internacionais registraram outro evento sísmico na montanha. Especialistas avaliaram que o segundo abalo teria sido provocado pelo colapso de cavidades e túneis subterrâneos utilizados na explosão.
Imagens de radar obtidas por satélites também indicaram deformações na superfície e um rebaixamento de partes do Monte Mantap.
Montanha pode ter ficado permanentemente danificada
Especialistas utilizam a expressão “montanha cansada” para descrever áreas submetidas a tantas explosões subterrâneas que sua estrutura rochosa se torna fragmentada e instável.
Nessas condições, o local pode perder a capacidade de conter os gases radioativos produzidos por novas explosões.
O teste termonuclear de 2017 teria provocado o colapso parcial do topo do Monte Mantap. Por esse motivo, não há informações sobre planos para novas detonações diretamente sob a montanha.
A Coreia do Norte, porém, ainda poderia realizar testes em outros pontos subterrâneos do complexo de Punggye-ri.
Existe risco de terremotos maiores?
Os pesquisadores ainda não sabem se a reativação das falhas poderá provocar terremotos mais intensos no futuro.
Paul Richards, sismólogo da Universidade Columbia que não participou do estudo, classificou a situação como potencialmente perigosa e afirmou que uma das principais dúvidas é se o processo poderá levar a abalos de maior magnitude.
O estudo não conclui que um grande terremoto esteja prestes a acontecer. Os dados demonstram, porém, que as explosões modificaram as tensões geológicas e que a atividade sísmica continua muito tempo depois do último teste nuclear.
Monitoramento mais difícil
A pesquisa foi baseada principalmente em informações de estações sismográficas instaladas na China e na Coreia do Sul, além de imagens de satélite.
A Coreia do Norte mantém sob forte sigilo as informações sobre o complexo de Punggye-ri, dificultando o acesso direto de pesquisadores e inspetores internacionais.
Os tremores persistentes também podem complicar a vigilância mundial do programa nuclear norte-coreano. Isso ocorre porque os especialistas precisam distinguir terremotos naturais, abalos provocados pelas antigas detonações e possíveis novos testes nucleares clandestinos.
Apesar de não realizar uma explosão nuclear conhecida desde 2017, o governo de Kim Jong-un continua ampliando sua capacidade de produção de material para armas atômicas e afirma que não pretende abandonar seu arsenal.
Crédito das informações: estudo publicado na revista Science e reportagem da Scientific American

