Fósseis encontrados no fundo do mar revelam denisovanos de até 1,90 metro perto de Taiwan
Ossos recuperados no Canal de Penghu estão entre os maiores já conhecidos de humanos arcaicos do Pleistoceno e ajudam cientistas a desvendar um dos parentes mais misteriosos do Homo sapiens
Uma descoberta no fundo do mar entre Taiwan e a China continental está trazendo novas pistas sobre os denisovanos, misterioso grupo de humanos arcaicos que viveu na Ásia há dezenas de milhares de anos.
Pesquisadores analisaram partes fossilizadas de um fêmur e uma tíbia recuperados no Canal de Penghu, no Estreito de Taiwan, e identificaram características moleculares compatíveis com denisovanos.
E o tamanho dos indivíduos chamou especialmente a atenção.
As estimativas indicam que o indivíduo relacionado ao fêmur poderia ter aproximadamente 1,80 metro e 83 quilos. Já aquele representado pela tíbia pode ter alcançado cerca de 1,90 metro e 91 quilos.
Os ossos estão entre os maiores conhecidos para representantes do gênero Homo durante o Pleistoceno.
Eram humanos gigantes?
Apesar de algumas publicações nas redes sociais utilizarem a expressão “humanos gigantes”, cientificamente essa definição não é adequada.
Uma pessoa com 1,90 metro seria considerada alta até atualmente, mas evidentemente não seria um gigante.
O que torna a descoberta excepcional é a comparação com outros humanos arcaicos que viveram naquela região e período.
Segundo os pesquisadores, esses denisovanos eram consideravelmente maiores do que exemplares conhecidos de Homo erectus e também se destacavam em relação a populações de Homo sapiens do Pleistoceno tardio no leste asiático.
Quem eram os denisovanos?
Os denisovanos são parentes extintos dos humanos modernos e dos neandertais.
Sua existência só começou a ser conhecida pela ciência no século XXI, depois que pequenos restos humanos encontrados na Caverna de Denisova, na Sibéria, revelaram uma linhagem até então desconhecida.
Desde então, evidências genéticas e fósseis encontrados em diferentes regiões mostraram que esses humanos arcaicos provavelmente ocuparam uma enorme área da Ásia.
E eles chegaram a encontrar nossos ancestrais.
Denisovanos e Homo sapiens tiveram descendentes em comum, deixando uma herança genética que ainda pode ser encontrada em algumas populações humanas atuais.
O mistério no fundo do mar
Existe outro detalhe fascinante nessa história: os fósseis vieram de uma área atualmente coberta pelo oceano.
Mas isso não significa que aqueles indivíduos necessariamente viveram debaixo d’água ou morreram durante uma inundação gigantesca.
Durante períodos glaciais do Pleistoceno, o nível dos oceanos era muito mais baixo e partes do atual Estreito de Taiwan ficavam expostas, formando ambientes terrestres habitados por diversos animais.
Com a elevação posterior dos oceanos, essas antigas paisagens acabaram submersas.
Por isso, embora a descoberta possa alimentar comparações populares com histórias de grandes dilúvios, o estudo científico não apresenta evidências ligando os fósseis ao Dilúvio bíblico.
Uma peça importante da evolução humana
A descoberta ganha ainda mais importância porque outro fóssil encontrado na mesma região, uma mandíbula conhecida como Penghu 1, já havia sido identificado como pertencente a um denisovano por meio da análise de proteínas antigas.
Agora, os ossos das pernas começam a revelar algo que os cientistas praticamente desconheciam: como era o corpo desses antigos parentes humanos.
E a primeira resposta é surpreendente.
Pelo menos alguns denisovanos que habitaram essa parte da Ásia parecem ter sido indivíduos altos, fortes e de grande porte físico.
Um novo capítulo de uma história humana que permaneceu por dezenas de milhares de anos escondida — literalmente — no fundo do mar.

