Zacimba Gaba: a princesa africana escravizada que se tornou símbolo de resistência no Espírito Santo
Trazida à força da África para o Brasil, Zacimba Gaba protagoniza uma das histórias mais impressionantes preservadas pela memória negra capixaba: de princesa escravizada a líder de uma luta pela liberdade
A história do Brasil guarda personagens extraordinários que, durante muito tempo, permaneceram praticamente desconhecidos fora das regiões onde suas memórias foram preservadas. Uma delas é Zacimba Gaba, princesa africana de Cabinda, região hoje pertencente a Angola, que teria sido escravizada e levada para o norte do Espírito Santo.
Sua trajetória atravessou gerações principalmente por meio da tradição oral das comunidades negras e quilombolas da região de São Mateus e Sapê do Norte. Por isso, datas e determinados episódios apresentam versões diferentes, e parte da narrativa deve ser entendida dentro dessa memória histórica e oral.
De princesa a escravizada
Segundo a narrativa tradicional, Zacimba pertencia à realeza africana de Cabinda e foi capturada juntamente com integrantes de seu povo, sendo posteriormente levada ao Brasil.
No Espírito Santo, acabou nas mãos do fazendeiro português José Trancoso. Os demais africanos que chegaram com Zacimba continuaram demonstrando grande respeito por ela, comportamento que teria despertado a atenção do escravizador.
A tradição conta que Zacimba sofreu castigos e graves violências até revelar sua condição de princesa em sua terra natal.
Mas aquela mulher que havia perdido sua liberdade começaria a planejar uma reação.
O “pó de amansar sinhô”
Um dos episódios mais conhecidos da história de Zacimba envolve a morte de José Trancoso.
Segundo a tradição oral, ela teria utilizado durante algum tempo pequenas quantidades de uma substância conhecida como “pó de amansar sinhô”, preparada a partir da cabeça de uma cobra e colocada na alimentação do fazendeiro.
O envenenamento seria realizado lentamente para evitar suspeitas. Com a morte de Trancoso, Zacimba teria liderado uma revolta que culminou na libertação de outros escravizados da propriedade.
A princesa guerreira
A liberdade conquistada não teria encerrado sua luta.
Zacimba e seu grupo seguiram pelas matas até a região de Riacho Doce, próxima a Itaúnas, onde a tradição atribui a ela a formação de um quilombo que passou a receber outros negros que escapavam da escravidão.
É justamente nesse ponto que sua história ganha um de seus capítulos mais impressionantes.
Relatos preservados na região contam que Zacimba organizava homens, construía canoas e realizava incursões contra embarcações ligadas ao tráfico de africanos escravizados.
Os ataques teriam ocorrido principalmente durante a noite, antes que os africanos transportados nos navios fossem desembarcados e vendidos.
O objetivo era libertá-los antes que fossem submetidos ao regime de escravidão nas fazendas brasileiras.
Entre a história e a tradição
Existe, entretanto, uma ressalva importante.
A história de Zacimba Gaba chegou aos tempos modernos principalmente pela memória oral. Uma das bases dessa tradição são relatos recolhidos no século XX junto a moradores negros idosos da região de São Mateus.
As próprias fontes apresentam divergências significativas sobre quando Zacimba teria vivido. Há versões que situam sua chegada ao Brasil no final do século XVII, enquanto outras reconstruções históricas colocam sua trajetória no século XIX.
Por essa razão, episódios como o envenenamento, os ataques aos navios e até algumas datas não devem ser tratados como acontecimentos documentalmente comprovados em todos os seus detalhes.
Isso, porém, não diminuiu a força de Zacimba na memória do povo capixaba.
Uma história que continua viva
Séculos depois, Zacimba Gaba permanece como símbolo da resistência negra no Espírito Santo.
Sua trajetória virou livros, pesquisas, projetos culturais e atividades educacionais. Em abril de 2026, a Secretaria da Cultura do Espírito Santo divulgou inclusive o jogo educativo “Zacimba: A Resistência da Princesa”, desenvolvido para apresentar sua história aos estudantes da rede pública por meio de uma experiência digital.
Entre documentos, tradição oral e memória coletiva, permanece a imagem de uma mulher africana que teria chegado ao Brasil acorrentada, recusado a submissão e dedicado sua liberdade à tentativa de libertar outros.
Zacimba Gaba deixou de ser apenas a princesa de Cabinda. Tornou-se a princesa guerreira lembrada pelo Espírito Santo.
Fontes consultadas: Biblioteca Florestan Fernandes/USP; Secretaria da Cultura do Espírito Santo; pesquisas acadêmicas e registros históricos sobre a memória de Zacimba Gaba.

