7 de Setembro: há 204 anos, Brasil declarava sua Independência — mas a história vai muito além do “Grito do Ipiranga”
Cartas de Leopoldina e José Bonifácio, viagem de Dom Pedro, disputas com Portugal e uma cena eternizada décadas depois ajudaram a construir um dos momentos mais importantes da história brasileira
Neste 7 de setembro de 2026, o Brasil comemora 204 anos da Independência, tendo como marco o episódio ocorrido às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo, em 1822.
A imagem que atravessou gerações é conhecida: Dom Pedro montado em um imponente cavalo, espada erguida, cercado por soldados, proclamando “Independência ou Morte!”.
Mas o processo que levou à separação de Portugal foi muito mais complexo — e até a cena que aprendemos a reconhecer nos livros escolares possui uma boa dose de construção artística.
A Independência começou antes de 7 de setembro
As relações entre o Brasil e as Cortes portuguesas vinham se deteriorando havia meses.
Portugal pressionava pelo retorno de Dom Pedro e pretendia reduzir novamente a autonomia adquirida pelo Brasil após a chegada da família real portuguesa, em 1808.
Em 2 de setembro de 1822, enquanto Dom Pedro estava em São Paulo, Maria Leopoldina, que exercia a regência durante sua ausência, presidiu uma reunião extraordinária do Conselho de Estado.
Diante das novas determinações vindas de Portugal, a orientação foi pela ruptura.
Leopoldina e José Bonifácio tiveram papéis decisivos
Mensagens foram então enviadas às pressas para Dom Pedro.
Entre elas estavam correspondências de Leopoldina e José Bonifácio, aconselhando o príncipe a romper definitivamente com Portugal.
No dia 7 de setembro, Dom Pedro retornava de Santos para São Paulo quando os mensageiros encontraram sua comitiva nas proximidades do riacho do Ipiranga.
Depois de ler as correspondências e tomar conhecimento das novas decisões portuguesas, ocorreu o episódio que se tornaria o marco simbólico da Independência.
E o famoso “Independência ou Morte”?
Há relatos históricos de testemunhas atribuindo a Dom Pedro declarações de ruptura e referências a “Independência ou Morte”. Entretanto, historiadores discutem a formulação exata das palavras pronunciadas naquele momento.
Ou seja: houve uma declaração de separação, mas não devemos imaginar necessariamente uma cena reproduzida palavra por palavra como posteriormente entrou para o imaginário popular.
A famosa pintura só surgiu 66 anos depois
Grande parte da imagem que temos daquele momento vem de “Independência ou Morte”, obra monumental de Pedro Américo.
Há um detalhe fundamental: o quadro foi concluído em 1888, cerca de 66 anos depois dos acontecimentos.
Não se trata, portanto, de um registro visual feito por alguém que estivesse presente.
Pedro Américo construiu uma representação grandiosa daquele momento histórico.
Até os animais utilizados na viagem provavelmente eram diferentes daqueles que dominam a pintura: registros históricos indicam que Dom Pedro realizou parte do trajeto montado em besta/mula, animal muito mais apropriado para enfrentar os caminhos difíceis da época.
O Brasil não ficou independente inteiro naquele instante
Outro ponto frequentemente esquecido é que 7 de setembro não encerrou o processo de Independência.
A ruptura enfrentou resistência portuguesa em diferentes regiões do território.
No Maranhão, por exemplo, a adesão oficial ao Império brasileiro somente ocorreu em 28 de julho de 1823. Outros conflitos também marcaram a consolidação da separação.
Por isso, historiadores contemporâneos tratam a Independência como um processo político e militar, e não simplesmente como um acontecimento isolado às margens do Ipiranga.
Dom Pedro ainda não era imperador
Naquele 7 de setembro, ele ainda era príncipe-regente.
Dom Pedro foi aclamado imperador posteriormente, em 12 de outubro de 1822, e sua coroação ocorreu em 1º de dezembro daquele ano.
204 anos depois
Mais de dois séculos se passaram desde aquela tarde de 1822.
O episódio do Ipiranga permanece como o grande símbolo da ruptura política com Portugal, mas conhecer os acontecimentos que vieram antes e depois ajuda a compreender que a construção do Brasil independente envolveu muito mais personagens, regiões e conflitos do que aqueles retratados em uma única pintura.
Neste 7 de Setembro, celebrar a Independência também é uma oportunidade para conhecer melhor a história do país — inclusive os capítulos que ficaram fora da imagem tradicional.
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