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MUNDO

Alemanha avalia novo papel na proteção nuclear da Europa 36 anos após renunciar à bomba atômica

Reportagem aponta possível apoio ao arsenal britânico e até baterias Patriot protegendo base de submarinos nucleares; governo alemão nega que existam planos para financiar armas nucleares

A Alemanha voltou ao centro de um dos debates militares mais sensíveis da Europa. Trinta e seis anos depois de reafirmar formalmente sua renúncia às armas nucleares, Berlim discute maneiras de ampliar sua participação na estratégia de dissuasão nuclear europeia, em meio às incertezas sobre o futuro do compromisso militar dos Estados Unidos com o continente.

Segundo reportagem publicada pelo jornal britânico The Telegraph, autoridades e estrategistas alemães estariam avaliando uma aproximação ainda maior com os arsenais nucleares do Reino Unido e da França, em vez de desenvolver uma bomba atômica própria.

Entre as possibilidades levantadas estaria uma contribuição alemã para a estrutura que sustenta o sistema nuclear britânico Trident.

Patriot alemão protegendo submarinos nucleares?

Uma das propostas mais concretas citadas pela reportagem não envolve diretamente ogivas nucleares.

Planejadores militares alemães teriam considerado utilizar baterias do sistema de defesa aérea Patriot, operadas por militares da Alemanha, para proteger instalações estratégicas britânicas.

Entre elas está Faslane, na Escócia, oficialmente conhecida como HM Naval Base Clyde.

É justamente nessa base que ficam os submarinos britânicos responsáveis pela força de dissuasão nuclear do país.

A participação alemã, nesse cenário, seria convencional: os militares alemães ajudariam a proteger a infraestrutura que mantém funcionando o arsenal nuclear britânico, mas não teriam controle sobre as ogivas nem sobre uma eventual decisão de lançamento.

Alemanha não teria sua própria bomba

O ponto é fundamental.

A discussão não significa que a Alemanha esteja preparando uma bomba nuclear própria.

Berlim continua vinculada aos compromissos internacionais assumidos após a reunificação alemã. Em 1990, no chamado Tratado Dois Mais Quatro, a Alemanha reafirmou sua renúncia à fabricação, posse e controle de armas nucleares, biológicas e químicas.

O caminho discutido atualmente seria outro: aumentar a participação alemã na defesa convencional e na estrutura estratégica que cerca as forças nucleares já existentes na Europa.

Atualmente, Reino Unido e França são as duas potências nucleares europeias.

Berlim nega financiamento do Trident

Depois da publicação da reportagem, porém, o governo alemão fez uma importante ressalva.

O vice-porta-voz do governo, Steffen Meyer, negou que estejam ocorrendo negociações para que a Alemanha financie diretamente o programa nuclear britânico Trident.

Segundo Meyer, não existem conversas nem planos para financiamento alemão dos programas nucleares britânico ou francês.

Ao mesmo tempo, Berlim confirma que mantém discussões com seus parceiros sobre uma cooperação mais profunda na área de dissuasão e sobre o fortalecimento da capacidade convencional europeia.

Ou seja: existe uma discussão estratégica sobre o papel alemão na proteção nuclear da Europa, mas o governo contesta especificamente a informação de que esteja preparando dinheiro para financiar armas nucleares britânicas.

Por que a Europa está discutindo isso agora?

Por trás dessa movimentação está uma preocupação cada vez maior das principais capitais europeias: até que ponto o continente poderá continuar dependendo dos Estados Unidos para sua proteção estratégica nas próximas décadas?

A guerra na Ucrânia, as tensões com a Rússia e as dúvidas sobre a permanência de grandes contingentes militares americanos na Europa aceleraram as discussões.

Alemanha e França já estabeleceram um grupo de alto nível para tratar de questões relacionadas à dissuasão nuclear e à combinação de forças convencionais, defesa antimísseis e capacidades nucleares francesas.

A Alemanha também participa do sistema de compartilhamento nuclear da OTAN.

O poder nuclear britânico

O Reino Unido mantém sua capacidade nuclear principalmente por meio de submarinos estratégicos.

Os atuais submarinos da classe Vanguard serão substituídos pela nova classe Dreadnought, enquanto Londres também desenvolve uma nova geração de ogivas, denominada Astraea, compatível com os mísseis balísticos Trident II D5.

A decisão de utilizar essas armas continuará sendo exclusivamente britânica.

Mesmo que países europeus participem futuramente da proteção das instalações ou contribuam para determinadas capacidades convencionais, isso não significaria automaticamente compartilhar o controle das armas nucleares.

Uma mudança histórica na segurança europeia

O debate revela uma transformação importante.

Durante décadas, a Alemanha evitou assumir protagonismo em qualquer discussão envolvendo armas nucleares por razões históricas, políticas e jurídicas.

Agora, 36 anos depois da reunificação, Berlim continua rejeitando possuir sua própria bomba, mas demonstra interesse crescente em participar da arquitetura que sustenta a dissuasão nuclear europeia.

Se essa aproximação avançar, soldados alemães poderão um dia ajudar a proteger instalações que abrigam parte do arsenal nuclear britânico.

Não seria uma bomba alemã.

Mas representaria uma mudança significativa no papel que a maior economia da Europa pretende desempenhar na defesa estratégica do continente.

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